PRECONCEITO  E  DISCRIMINAÇÃO:

O verbete "aidético" embora muito utilizado, principalmente no meio jurídico e parlamentar, além de não existir oficialmente em nosso idioma (o Português falado no Brasil) é considerado agressivo, rotula discriminação e preconceito. Os termos adequados, lícitos e politicamente corretos para uma pessoa com sorologia positiva para o HIV são respectivamente: soropositivos, HIV positivo ou portador do HIV.

Historicamente é muito comum se atribuir ao próprio doente a responsabilidade pela doença que o vitimou, associando-se ao seu modo de vida, hábitos e costumes, que muitas vezes são considerados, por parte da sociedade não apenas como diferentes mas, desviantes ou desregrados. A partir de então surge a idéia, hoje combatida, dos chamados "grupos de risco". Identificar responsáveis é uma maneira simplista de explicar o que não se compreende, e também uma atividade "terapêutica" pois uma vez achados os "culpados" os demais estão automaticamente eximidos de toda e qualquer responsabilidade. No inconsciente coletivo esses indivíduos deveriam então ser penalizados pelo seu delito e seus agravos.

Diante de toda e qualquer epidemia há sempre um movimento acusatório de maior ou menor intensidade, variando de acordo com a gravidade. A responsabilidade e a culpa recaem invariavelmente sobre as minorias, os diferentes, pobres, fracos e marginalizados, incapazes de oferecer resistência ou de se defender. Mas este tipo de comportamento não é novo, desde os tempos medievais quando a Peste Negra assolou a Europa, viajantes, judeus, leprosos e marginais foram os primeiros a ser responsabilizados pela disseminação da epidemia que dizimou grande parte da população. Os próprios tratados médicos da época, que versavam sobre a Peste Negra, evidenciavam a: "ação maléfica dos envenenadores". Não era incomum, naqueles tempos, os "culpados" serem não apenas expulsos, escorraçados da região, como também punidos severamente: humilhados, espancados, as vezes até sumariamente executados e queimados, arbitrariamente, para aplacar a ira dos indignados.

É evidente, por mais incrível que possa parecer, que ainda nos dias de hoje, em vez de se adotar uma conduta consciente, solidária e construtiva diante da AIDS, ainda existem aqueles que são guiados pelo furor acusatório dos tempos feudais, e que buscam segregar "os culpados pelos pecados da humanidade", discriminando algumas minorias já bastante marginalizadas como os homossexuais, hemofílicos, usuários de drogas injetáveis e as prostitutas, por serem pessoas diferentes ou simplesmente mais vulneráveis.

Luiz Fernando Conde Sangenis, ressalta com bastante lucidez, no seu livro: AIDS e Juventude: "Ainda que não aceitemos certos comportamentos e opções das pessoas, nem por isso estamos eximidos de respeita-las na sua dignidade humana, inclusive considerando os seus direitos inalienáveis".

O livro Direito das Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, publicado pelo Grupo PELA VIDDA em 1993, com o apoio da Fundação Ford e da Sociedade Viva Cazuza, retrata esta realidade de forma clara: "O fato da Infecção pelo HIV e AIDS ter sido detectada inicialmente em determinadas pessoas ou grupos sociais como os homossexuais masculinos e os usuários de drogas endovenosas, concorreu objetivamente para a estigmatização e a discriminação que, somadas à incurabilidade da doença (ou conjunto de doenças), determinaram para a pessoa com HIV e AIDS uma condenação não só à morte biológica, natural e reservada a todos, independente da sorologia para o HIV, mas, com muito mais rigidez, à morte civil, impedindo-a de exercer plenamente todos os seus direitos de cidadã. A AIDS deixa de ser uma doença para ser uma "pena" aplicada aos "criminosos morais".

Janete Hanan chama a atenção, em seu livro A Percepção Social da AIDS – Raízes do Preconceito e da Discriminação, para essas disfunções: "As propagandas oficiais veiculadas ajudaram a gravar em letras maiúsculas e vermelhas: AIDS PEGA e AIDS MATA. O resultado mostra-se até hoje catastrófico: todos tem pavor do doente (esquecendo a doença), mas poucos sabem como preveni-la ou evitá-la".

Ultimamente as campanhas oficiais melhoraram muito em qualidade, nível de informação e respeito aos portadores da AIDS, mas ainda não encontraram o melhor caminho para a educação e o atalho da prevenção. Por isso é muito importante salientar que a contaminação pelo HIV não está restrita aos chamados "grupos de risco". Qualquer pessoa, de qualquer grupo social, está sujeita a contrair o vírus. Ao mesmo tempo é preciso desmistificar e desdramatizar a doença: não se pega AIDS simplesmente pelo convívio diário com um soropositivo. Contatos diretos como aperto de mão, abraço e outros casuais, até mesmo o beijo não provoca contaminação. Também não se pega AIDS através de picadas de insetos, mordidas de animais, partilhando a mesma água da piscina, pelo uso comum de banheiros: privadas, pias, chuveiros, assentos e etc.. Muito menos no uso de utensílios domésticos como: talheres, pratos, toalhas, vestuário, roupa de cama e etc.. No local de trabalho, o vírus não circula pelo ar, não se transmite pelo espirro, tosse, suor, saliva, ou pelo uso de objetos comuns de trabalho.

NOTA: Os únicos objetos pessoais de um soropositivo que não devem ser usados (compartilhados) por outras pessoas são os chamados perfuro cortantes, tais como: alicate de unha, de cutícula, lâminas de barbear e os de higiene pessoal: como  escova de dentes, porque a utilização desses instrumentos pode ocasionar sangramento e os resíduos podem provocar contágio. Também é desaconselhado o compartilhamento das chamadas "toalhinhas íntimas" femininas porque estas guardam resíduos de secreção vaginal.

Lamentavelmente, ainda é muito comum no meio social um soropositivo masculino que não seja hemofílico ou assumidamente gay, carregar sobre seus ombros o peso incômodo e desafortunado da desconfiança injustificada de parentes, amigos, ou terceiros, de que ele seja usuário de drogas injetáveis ou bissexual. As pessoas leigas ainda relutam em acreditar que os heterossexuais, mesmo àqueles que não se drogam, também podem ser contaminados pelo HIV. Para as mulheres, o fantasma de uma conduta promíscua, clandestina e do consumo de drogas pesará da mesma forma, porque a AIDS está associada historicamente a uma forma de uma vida ilícita, libertina e pecaminosa.     

A imagem de um portador da AIDS que nos salta dos arquivos da memória é sempre a de uma pessoa magra, debilitada, com o corpo coberto de manchas, deitada sobre uma cama definhando, sofrendo solitária e abandonada. Esta imagem foi verdadeira um dia, é bem verdade, mas já faz muito tempo. Hoje com o advento de novas e potentes drogas e os avanços terapêuticos, na maioria das vezes é muito difícil, reconhecer um portador do HIV, principalmente quando em estado assintomático, simplesmente olhando-se para ele. No cotidiano o que diferencia uma pessoa soropositiva das outras é o preconceito.